TrajetóriasLeitura

Trajetórias Leitura

Entre o fim do século XIX e início do século XX, o Brasil tornou-se a morada de milhões de pessoas vindas de diversas partes do mundo. Naquela época, incentivados pelo governo brasileiro e pela crescente produção de café, grupos de imigrantes italianos, espanhóis, portugueses, alemães e japoneses chegaram ao Brasil para iniciar uma nova vida. O Brasil também se tornou o destino de diversos imigrantes no período em que a imigração para os Estados Unidos esteve restrita em virtude de leis federais (Emergency Immigration Act of 1921 e Immigration Act of 1924) e também em razão das duas grandes guerras mundiais. Como podemos ver, diversos foram os fatores que fizeram com que pessoas vindas do mundo todo escolhessem o Brasil como sua nova casa.

Esse é o caso da Mara, que você conheceu na seção Pano de Fundo, imigrante portuguesa que veio ao Brasil em 1957 e hoje vive no Rio de Janeiro. É o caso também da família Wada, que deixou o Japão e chegou ao Brasil naquele mesmo ano em busca de uma nova vida. O texto “Essa história é sua também”, que conta a trajetória da família Wada, foi publicado na revista Cláudia em fevereiro de 2008.

Leia o texto (abaixo do Glossário) para conhecer um pouco mais sobre a história dessa família japonesa e o caminho percorrido pelos seus parentes até os dias atuais. Faça as Atividades de Leitura e não se esqueça de clicar também nos vídeos onde Mara nos conta sua trajetória. Eles se encontram no fim desta página.

Glossário

Acolher: receber ou abrigar alguém, fazendo-o com boa vontade.

Apreciar: sentir apreço, ter consideração por uma pessoa ou uma coisa.

Aportar: desembarcar do navio, chegar no porto.

Árdua: tarefa difícil, trabalhosa.

Atravessadores: aqueles que estão entre o produtor e o vendendor na rede de vendas; intermediários que revendem produtos a outros comerciantes.

Cartilha: livro utilizado na pré-escola, para alfabetização, em que as crianças aprendem a ler e escrever.

Conterrâneo: aquele que é da mesma terra, ou seja, proveniente do mesmo país ou região.

Convés: região superior do navio, onde ficam os passageiros.

Encarregado: aquele que tem uma responsabilidade, uma incumbência.

Enxada: instrumento de metal, com cabo de madeira, usado para cavar a terra.

Lavoura: local destinado à agricultura, plantação.

Matricular: inscrever-se na escola para poder frequentar as aulas.

Progredir: avançar de maneira positiva, desenvolver.

Prosperar: obter bom êxito, vencer nos negócios.

Quintal: terreno geralmente localizado nos fundos da casa, para ser usado como pátio, horta ou jardim.

Rabiscar: desenhar coisas sem muita perfeição.

Ressoar: produzir sons, repercutir.

Tear: máquina que tece fios e dessa forma produz tecido.

A trajetória de Mara

Acompanhe, nos três vídeos a seguir, a história de Mara, que nasceu em Trás-os-Montes, Portugal, e hoje vive no Rio de Janeiro.

  • Portuguesa feliz no Rio (Mara)
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    Mara: Meu nome é Mariana do Carmo Miranda, mas sou chamada como Mara. Cabelereira em Copacabana, tive sucesso, agora é que está ruim, mas já… já foi muito bom. Sou portuguesa, vim pra aqui em (19)57 e… e sou de Trás-os-Montes e … e gostei… gosto muito do Brasil, adoro o Brasil, adoro o povo, e agora está um bocadinho ruim, mas vai-se levando.

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    Mara: My name is Mariana do Carmo Miranda, but they call me Mara. I'm a hairdresser in Copacabana, I've been successful, now it's a bit bad... but it's already... it's already been very good. I'm Portuguese, I came here in fifty-seven and... and I'm from Trás-os-Montes and... and I like... I like Brazil very much, I love Brazil, I love the people, and now things are bit bad but we keep going.

  • Fuga da ditadura portuguesa (Mara)
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    Mara: Ah, a minha vida lá em Portugal era.... era mais ou menos. No tempo do Salazar foi horrível, por isso que eu vim pra aqui, vim pra aqui porque o Salazar tava perseguindo os jovens, e eu estava visitando na cadeia um... uns amigos e a polícia estava me preo... me impressionando, então resolvi vir pra aqui e fui feliz aqui. Mas lá em Portugal não era bom, não! Não tive uma vida muito boa lá em Portugal, não. A minha adolescência, nascida lá em Trás-os-Montes, numa família pobre, também praticamente imigrantes de... de neta de avós húngaros... não eram húngaros não, eram poloneses. E sofríamos muito... uma... mas era uma vida boa, sem preocupações, mas houve aquela guerra de... do Franco, aquela guerra civil com o Franco, o... o... com os comunistas, depois logo em (19)35, né, veio outra guerra, também sofremos muito, foi uma... tive uma infância de sofrimentos pela vida miserável mesmo, e pelas guerras.

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    Mara: Oh, my life in Portugal was… alright. It was horrible during Salazar’s time, that’s why I came here, because Salazar was persecuting the young people, and I was visiting some friends in jail and I was scared of the police, so I decided to come here, and I was happy here. But life wasn’t good in Portugal. I didn’t have a very good life there. My adolescence, born in Trás-os-montes into a poor family, also immigrants from… granddaughter of Hungarian grandparents… no, they were not Hungarian, they were Polish. We suffered a lot. But it was a decent life, no worries, but there was Franco’s civil war, with the communists, and soon after in 35 there was another war, we also endured a lot, I had a childhood of hardship for the miserable life and for the war.

  • Que trabalheira! (Mara)

    Termos úteis

    Aluguel: preço mensal pago para se morar, por um tempo determinado, em uma casa ou apartamento.

    Fazer o pé: também se utiliza o termo pedicure, que significa cortar, lixar e colocar esmalte nas unhas dos pés.

    Vencer: ganhar, triunfar, obter vitória.

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    Mara: Trabalhava noite e dia, domingo e feriados pra comprar um apartamento pra b... pra não pagar aluguel. E venci, comprei meu apartam... com onze meses de Brasil tinha meu apartamento, na Toneleiros, no cen... no 186. Mas trabalhava muito, domingo ia pra casa das freguesas, almoçava lá, fazia pé, mão, sobrancelha, e até limpeza de pele fazia! E foi a minha vida, se... a minha vida aqui no Brasil só foi trabalhar. E praia.

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    Mara: I worked day and night, Sundays and holidays to afford buying an apartment so I wouldn’t pay rent. And I made it, after eleven months in Brazil I owned my apartment, at 186 Toneleiros St. I worked a lot, tough, on Sundays I would go to my clients’ houses, would have lunch there, would do pedicures, manicures, eyebrows, even facials! And that was my life, my life here in Brazil was work only. And going to the beach.

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Essa história é sua também

PATRÍCIA NEGRÃO

Ela chegou ainda menina; ele nasceu no estado de São Paulo, mas vivia como se estivesse na terra do sol nascente. Na vida de Michiko e Alfredo, ressoam ecos do movimento social de imigração que fez do Brasil o porto seguro da maior comunidade de descendentes de japoneses do mundo. Um caso de amor – de uma família pelos quatro filhos e de um povo por dois países

Nas noites claras, Miyako e Asagoro Wada sentavam-se com os quatro filhos no quintal de sua casa, na Província de Nara, região central do Japão, para juntos apreciar a lua cheia. “Minha mãe lia poesias para nós e meu pai rabiscava com um ramo de bambu um círculo no chão, o globo terrestre”, recorda Michiko Wada Ando. Ele desenhava o irmão que havia imigrado para o Brasil em cima da Terra, em pé, e nós, embaixo, todos de ponta-cabeça.” Asagoro fazia, então, o sol e a lua e explicava aos filhos por que no Brasil era dia e no Japão noite. “Eu era pequenininha e ficava pensando: é só abrir um buraco que vou parar no Brasil! Eu já tinha vontade de conhecer o país.”

Era a década de 50 e o Japão vivia a tensão do pós-guerra. Sem emprego, Asagoro, ex-diretor industrial de uma fábrica de peças de tear, viu-se obrigado a tentar a sorte por conta própria. Montou uma pequena fábrica para transformar ostras em botões, porém os negócios da família não prosperavam. “Nunca passamos fome, mas eu percebia que já não estávamos bem de vida”, conta Michiko. “O primeiro e o terceiro irmãos de meu pai viviam havia algum tempo no Brasil e progrediam. Eles convenceram meu pai a imigrar.”

Em busca de outra vida

Em 31 de agosto de 1957, a família Wada embarcou no Buradiru Maru em direção ao país que fazia parte do imaginário de todos. Do convés, ao lado de centenas de outros imigrantes, os seis lançavam fitas coloridas aos parentes e amigos no porto – uma tradição japonesa de despedida. Michiko, que poucos dias depois completaria 10 anos dentro do navio, chorou muito. “De emoção, não de tristeza. Nós tínhamos muita esperança, finalmente partíamos para uma terra que nos acolheria.”

A vontade era enorme, mas a adaptação foi árdua. Costumes, comida, clima diferentes e, principalmente, a língua portuguesa, que, num primeiro momento, parecia impossível de aprender. “Foi muito difícil! Eu chorava em casa porque não entendia nada na escola”, conta Michiko. Aluna exemplar no Japão, ela estava no quarto ano, mas foi obrigada a retornar ao primeiro ano primário. “A professora entrava na sala, nós levantávamos para cumprimentá-la e eu era muito mais alta que os outros. Ficava triste, frustrada no meio dos pequenininhos.” Michiko não teve dúvida: decorou a cartilha inteira. Na prova, nenhum erro. “Para nossa surpresa, me deram nota 9 e não 10.” O pai pediu ao tio para perguntar o motivo à professora. “Ela disse que eu acertara tudo, mas não sabia o que estava escrevendo. Repetia como um papagaio”, lembra, rindo, Michiko.

No primeiro ano no país, a família morou em Mirandópolis (SP). “Meus tios acharam melhor vivermos, no início, no interior para depois mudarmos para a capital”, diz Michiko. O pai arrumou emprego na oficina mecânica de um conterrâneo. No final de 1958, como planejado, a família transferiu-se para Diadema (SP), onde Asagoro, hoje com 93 anos, fundou a Indústria Mecânica Wada Ltda., que fabricava peças de navio e automóvel, chegou a ter 100 funcionários e foi vendida em 1986.

Uma nova família

Quando completou 14 anos, Michiko havia terminado o quarto ano primário e se sentia tão integrada ao país que decidiu contrariar as tradições japonesas. “Minha tia disse que eu precisava me preparar para casar e queria me matricular em uma escola japonesa de culinária, etiqueta e corte e costura.” Os planos de Michiko para o futuro eram outros, e ela conseguiu convencer o pai a deixá-la continuar estudando ao mesmo tempo em que trabalhava com ele na administração da indústria. Formou-se orientadora pedagógica pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap). E só então, aos 27 anos, cedeu à tradição. Aceitou se casar com o homem que o padre Inácio Takeuchi, importante liderança na comunidade japonesa, escolheu para ela. “Ele tinha fama de padre casamenteiro. Se achava que uma jovem japonesa combinava com um jovem japonês, marcava um encontro e levava os dois ao cinema”, conta Michiko.

Em 1975, com as bênçãos do padre, Michiko casou-se com Alfredo Fumio Ando, jovem formado em contabilidade também pela Fecap. Nascido em 1943 na região de Cotia (SP), Alfredo cresceu na lavoura, entre seus conterrâneos, e até os 7 anos freqüentava o nihongakko (escola mantida pelos japoneses onde as crianças aprendiam a ler e escrever e eram introduzidas nos costumes do país de origem) e só falava a língua dos pais. “Também sofri no primeiro ano primário por não falar português”, recorda Alfredo. Caçula de seis meninos, desde pequeno era encarregado de fazer a comida da família, enquanto o pai, Kiyozi Ando, a mãe, Miti Ando (ambos já falecidos), e os cinco irmãos davam duro na lavoura. “Fui o único filho a não pegar na enxada.” Quando Alfredo nasceu, seu pai já havia deixado a fazenda de café e comprado um pedaço de terra em Cotia – naquela época conhecida como cinturão verde. Viviam da plantação de batata e de uma granja de ovos. Os produtos eram vendidos na capital, no largo da Batata, no bairro de Pinheiros. Para evitar os atravessadores, 82 agricultores, entre eles o senhor Kiyozi, juntaram-se e fundaram em 1927 a Cooperativa Agrícola de Cotia, uma das mais tradicionais do estado de São Paulo.

Os filhos cresceram. Dona Miti decidiu, então, mudar-se para a capital para que eles pudessem continuar os estudos. Compraram uma casa próxima ao largo da Batata. Foi para lá que Alfredo levou a jovem esposa quando se casou e ainda moram na mesma região. Começaram a trabalhar juntos no escritório de contabilidade de Alfredo, até que, em 1987, Michiko abriu a empresa Anew Paulista Naturali, distribuidora de uma marca japonesa de produtos naturais, a Anew, que mantém até hoje. O casal realizou seu grande sonho: ter quatro filhos nipo-brasileiros e vê-los todos formados em boas faculdades públicas. Marlene, 31 anos, é engenheira de alimentos pela Unicamp; Ana, 30, designer gráfica, fez arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP); Fernando, 28, concluiu o curso de engenharia de produção na Escola Politécnica e o de economia na Faculdade de Economia e Administração da USP; o caçula, Alfredo, 27, formou-se médico e faz residência em anestesiologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Michiko e Alfredo aguardam agora a chegada dos netos. “Quando entrei no Buradiru Maru, aos 9 anos, não tinha idéia do que me esperava, mas decidi que o Brasil seria minha nova terra. Amo este país.”

Brasil e Japão, rota de duas mãos

Em 1908 chegaram ao Brasil as primeiras 165 famílias de imigrantes japoneses. Nas décadas seguintes, os Marus – grandes navios vindos do Japão – desembarcaram milhares de imigrantes no porto de Santos (SP). Célia Sakurai, pesquisadora da imigração japonesa e autora de Os japoneses (Editora Contexto), conta que, de 1908 a 1924, a passagem dos imigrantes era financiada pelos fazendeiros de café brasileiros. “Só embarcavam três pessoas de uma mesma família – três enxadas’ –, de ambos os sexos e a partir de 12 anos. Muitos casamentos foram arranjados na época para que as famílias pudessem vir para cá.” Os imigrantes assinavam um contrato de trabalho por dois anos na fazenda. Do salário eram descontados os gastos com a passagem e estada. “O pouco que sobrava, eles guardavam. O desejo, naquele momento, era retornar para o Japão”, diz Célia. A partir de 1925, com a explosão populacional, o governo japonês passou a financiar as passagens. “Houve, então, um pico de entrada dos imigrantes no Brasil.” Em 1942, com a Segunda Guerra, a imigração foi proibida. Só uma década depois os Marus voltaram ao porto de Santos. “Os imigrantes que aqui aportaram a partir de 1952 tinham um perfil diferente: traziam algum diploma e chegavam com o desejo de se estabelecer”, explica Célia. Muitos foram trabalhar nas empresas navais e eletro eletrônicas japonesas que abriram filiais no Brasil.

No início da década de 1980, com a crise econômica brasileira e a demanda do Japão por mão-de-obra, os filhos dos imigrantes japoneses começaram a buscar oportunidades de trabalho na terra natal de seus pais ou avós. De 1980 a 1990, 85 mil jovens nipo-brasileiros embarcaram para o Japão. Eles estão fazendo hoje o caminho contrário percorrido por seus conterrâneos.

© 2008, Abril Comunicações S.A., Revista Claudia.